Origem da Família Melo

A antiga vila de Melo, hoje pertencente ao concelho de Gouveia, fica situada nas encostas da Serra da Estrela, a poucos quilómetros da margem esquerda do Mondego, e teve origem numa quinta que aí fundou, pelos anos de 1200, D. Gonçalo de Sousa. D. Mem Soares, cavaleiro que acompanhou el-rei D. Afonso III na conquista da Algarve, continuou a obra de povoamento e veio a ser o primeiro senhor da vila de Melo, nome que acrescentou como apelido. É a origem de uma de uma ilustre família portuguesa cujos ramos principais aqui se traçam.
por: Luís Amaral

Genealogia dos Melos

A primeira referência documentada que se conhece sobre a existência do apelido surge numa carta dada em Faro no ano de 1249, em que o nome de “Menendus Suerii de Merloo” é referido como um dos cavaleiros que acompanharam o rei D. Afonso III na conquista do Algarve. Segundo reza o Livro Velho de Linhagens, era filho de D. Soeiro Remondo e de D. Urraca Viegas de Barroso, e irmão primogénito de Pedro Soares de Alvim, progenitor desta família, e todos descendentes da linhagem dos de Riba de Vizela.
D. Mem Soares foi o 2º senhor de Melo e dele foram bisnetos, na varonia, Martim Afonso de Melo e Vasco Martins de Melo.
O primogénito, Martim Afonso de Melo, 5º senhor de Melo e de Linhares, Seia, Gouveia, Celorico e Penamacor, foi vassalo de D. Fernando e tomou o partido de Castela na crise da sucessão 1383-85. Pelo contrário seu filho e herdeiro, Estevão Soares de Melo, 6º senhor de Melo foi vassalo de D. João I e acompanhou-a na expedição a Ceuta em 1415, e por lá se deixou ficar por mais alguns anos.
Na sua descendência por varonia se manteve a sucessão do senhorio de Melo até seu 4º neto, Francisco, 12º senhor de Melo, de quem foi herdeira, por não terem sobrevivido filhos, sua irmã D. Antónia de Melo, casada com Manuel de Oliveira Freire. Coube suceder na Casa o filho primogénito deste casal e é só em finais do século XVIII (1793) que os senhores de Melo retomam a varonia do nome pelo casamento de D. Ana Rufina Soares de Melo Sousa Tavares e Moura, a herdeira da Casa, com Pedro de Melo Breyner, filho segundo do 3º senhor de Ficalho, Francisco de Melo.

Com origem provada que remonta a 1249, o fundador da família, D. Mem Soares de Melo, foi um dos cavaleiros que participou na conquista do Algarve ao lado de D. Afonso III.

Ao filho primogénito deste casal, Luis Francisco Soares de Melo da Silva Breyner Sousa Tavares e Moura, um dos “bravos do Mindelo”, concedeu a rainha D. Maria II em 1835 o título de primeiro conde de Melo. Não tendo deixado filho varão, sucedendo-lhe a mais velha das suas filhas, D. Teresa Francisca de Melo, que casou com o 3º conde de Vila Real, D. José Luis de Sousa Botelho Mourão e Vasconcelos. Por falta de descendência do único filho varão que nasceu deste casamento, veio a suceder na casa uma filha, D. Maria Teresa de Sousa Botelho e Melo, 3 condessa de Melo casada com o 2º conde de Mangualde, Fernando de Almeida Cardoso de Albuquerque. Deste casal é neto o engº Fernando de Sousa Botelho de Albuquerque, 4º conde de Mangualde, 6º conde de Vila Real e 5º conde de Melo.
Como mais acima deixámos escrito, do 5º senhor de Melo foi irmão Vasco Martins de Melo. Serviu três reis: D. Pedro I – que lhe coutou a quinta de Água dos Peixes, no termo de Alvito, hoje propriedade dos duques de Cadaval, seus descendentes -, de D. Fernando e de D. João I. Partidário do mestre de Aviz, assistiu em 1385 às Cortes de Coimbra que o declararam legítimo rei de Portugal e a seu lado combateu em Aljubarrota, onde lhe morreu o filho terceiro, Vasco Martins de Melo. Casou duas vezes, de ambos deixando geração. Do primeiro casamento, nasceu único Gonçalo Vasques de Melo, que sucedeu na casa de seu pai. Do segundo, foram filhos Martim Afonso de Melo e Vasco de Melo, que morreu novo em Aljubarrota sem ter chegado a casar.

Três Melos integravam o grupo dos “Vencidos da Vida”. Da esquerda para a direita: o Conde de Sabugosa,o Conde de Ficalho e o Conde de Arnoso com Eça de Queirós.

A Gonçalo Vasques de Melo, o primogénito, doou el-rei D. João I de juro e herdade as rendas reais de Serpa e os senhorios de Castanheira, Povos e Cheleiros. Sucedeu-lhe seu único filho varão, também chamado Gonçalo Vasques de Melo, casado com D. Isabel de Albuquerque, filha do 2º senhor de Angeja e pais de Pero Vaz de Melo, que veio a suceder como 4º senhor das terras de seus maiores, e de D. Teresa de Albuquerque, casada com Luis Álvares, mestre sala de D. João I, com geração que usou o apelido de Melo mas que em breve se extringuiu.
Pero Vaz de Melo foi regedor da Casa do Cível de Lisboa e em 1466, concedeu-lhe o rei D. Afonso V o senhorio e condado de Atalaia, e ainda a vila de Asseiceira. Passou a chamar-se D. Pedro de Melo e teve, do seu casamento com D. Maria de Noronha, um filho, D. Pedro, de quem não ficou descendência, e duas filhas: D. Isabel, a mais nova, casada com Diogo Lopes de Sousa, 3º senhor de Miranda e alcaide-mór de Arronches e a mais velha, D. Leonor, mulher de D. Álvaro de Ataíde, filho do 1º conde de Atouguia.

Em nenhum dos ramos de Melos aqui tratados se manteve a varonia do fundador da linhagem, D. Mem Soares de Melo.

Veio este casal a suceder na casa dos condes de Atalaia e foram, por isso, os 5ºs senhores de Castanheira, Povos e Cheleiros. D. Álvaro e seu filho D. Pedro acharam-se comprometidos na conspiração contra D. João II. Condenados à morte, o filho foi degolado em Setúbal. O pai conseguiu escapar para Castela. Reabilitado no reinado de D. Manuel, regressou a Portugal e aqui passou a segundas núpcias. Ao filho que teve deste segundo casamento, D. António de Ataíde, foi concedido o título de conde de Castanheira. De D. Pedro de Ataíde, o primogénito degolado em Setúbal, ficara um filho, D. Fernando de Ataíde, casado com D. Leonor de Noronha, filho dos 2ºs barões de Alvito, e foram estes os fundadores do Mosteiro de Nossa Senhora da Subserra de Castanheira, onde estão sepultados. Por mercê de D. João III, os senhorios de Castanheira, Povos e Cheleiros, passaram a seu sobrinho D. António de Ataíde, feito conde de Castanheira. Nele, onde como se viu não corria o sangue dos Melos, acabou por recair a sucessão do património que foi de Gonçalo Vasques de Melo.

O conde de Sabugosa, autor de uma vasta obra, foi uma das grandes figuras das letras portuguesas.

Do segundo casamento de Vasco Martins de Melo foi filho, como acima dissémos, Martim Afonso de Melo. Como filho segundo, coube-lhe em herança o senhorio da quinta de Água de Peixes. Nomeou-o el-rei D. João I alcaide-mór de Évora e fê-lo mais tarde seu guarda-mór. Depois da expedição a Ceuta, ofereceu-lhe a sua capitania, a que Martim delicademante se escusou, preferindo a paz do Alentejo.
Casou duas vezes e de ambos deixou descendência. As filhas, casou uma com o conde de Marialva, outra com o conde de Viana, outra com o senhor de Barbacena e outra, ilegítima, com Pero Lourenço de Ferreira, de quem vêm os Melos, senhores e depois condes de Povolide.
Quanto aos filhos, Martim Afonso de Melo foi o sucessor, e dele foram irmãos (pelo segundo casamento do pai) Vasco Martins de Melo, alcaide-mór de Évora e João de Melo, copeiro-mór.
O primogénito, Martim, foi alcaide-mór de Olivença e sucedeu ao pai no ofício de guarda-mór, confirmado nos reinados seguintes de D. Duarte e D. Afonso V. Casado com uma filha e herdeira do senhor de Ferreira de Aves, foi pai, entre outros, de Rodrigo Afonso de Melo e de Manuel de Melo. O primogénito foi capitão de Tanger e D. Afonso V concedeu-lhe o título de conde de Olivença, passando a ter direito ao uso de “Dom”. Casado com D. Isabel de Menezes, não deixou filho varão. Mas foi pai de D. Filipa de Melo, que casou com o senhor D. Álvaro, filho dos 2ºs duques de Bragança e estes, progenitores dos marqueses de Ferreira, depois duques de Cadaval, que por este casamento, usaram, como ainda hoje usam, o apelido de Melo aliado ao de Álvares Pereira, do Condestável seu antepassado.
Junto da torre de Évora, construíu o primeiro Martim Afonso de Melo o seu palácio da Torre das Cinco Quinas, que seu filho, com o mesmo nome, continuou. Mesmo ao lado, o convento dos Lóios, mandado edificar em cumprimento do testamento do conde de Olivença, filho e neto daqueles dois Martins, veio a ser o panteão deste ramo de Melos descendente por varonia, como se disse, dos reis de Portugal.

PALÁCIO DOS MARQUESES DE FICALHO SERPA

Alcaides de Serpa, não espanta que a sua residência fosse construída nas muralhas do castelo e que no actual palácio, construção típica seiscentista – sóbria, austera, sem grandes adornos – subsistam memórias da anterior construção medieval. Não se sabe exactamente quem deu início à edificação do novo palácio, que nunca foi concluída. Mas tudo indica que se trate de Pedro de Melo, que foi governador do Rio de Janeiro, ou de Francisco de Melo, seu pai, senhor de Ficalho. E tudo porque, nomedamente durante a guerra civil de 1828-32, a casa foi várias vezes saqueada e desapareceram os documentos respeitantes a todas as obras que se fizeram.
Ao marquês de Ficalho Dr. António Martim de Melo, distinto cientista, professor universitário e escritor, se deve, a partir de 1946, a grandiosa tarefa de recuperar o palácio, recuperação escrupulosa e notável que mereceu, com medalha e diploma, o reconhecimento do Institut International das Châteaux Historiques.

Do conde de Olivença, D. Rodrigo, foi irmão, já o dissémos, Manuel de Melo, capitão de Tânger. Foi pai de Rui de Melo, alcaide-mór de Elvas, que de seu segundo casamento deixou larga descendência. O seu 3º neto, Martim Afonso de Melo, 5º alcaide-mór de Elvas, foi segundo conde de S. Lourenço em 1647, por renúncia de seu sogro, o 1º conde Pero da Silva. Seu bisneto, Rodrigo de Melo da Silva, 5º conde de S. Lourenço, deixou por herdeira uma única filha, D. Ana Joaquina de Melo e Silva, vindo a ser 6º conde seu marido D. João de Noronha, filho dos 2ºs marqueses de Angeja. Destes foi único filho António Maria César de Melo Silva e Menezes, criado em 1804 primeiro marquês de Sabugosa. A um filho dos 2ºs marqueses de Sabugosa, José António de Melo, concedeu el-rei D. Miguel em 1830 o título de conde de Cartaxo. Não tendo deixado sucessão, só muitos anos mais tarde (1906), o título foi renovado pelo rei D. Carlos a favor de um filho dos 3ºs marqueses de Sabugosa.
Vasco Martins de Melo, o alcaide-mór de Évora a que acima nos referimos, foi-o também de Castelo de Vide. Com assento no conselho de D. Afonso V e procurador às cortes de Lisboa de 1455, deixou descendência dos seus dois casamentos. Do primeiro, refiram-se Fernão de Melo, alcaide-mór de Évora e João de Melo, alcaide-mór de Casével. Do segundo, Vasco Martins de Melo, que sucedeu a seu pai como alcaide-mór de Castelo de Vide. Deste último descendia D. Violante de Melo, que casou com Afonso de Torres e foram os avós de Francisco de Melo, criado em 1666 conde da Ponte e depois marquês de Sande.
Na alcaidaria de Évora veio a suceder o primogénito, Fernão, e depois dele, seu filho Cristovão. Deste ficou apenas uma filha, D. Isabel de Melo, casada com D. Fernando Henriques, 3º senhor das Alcáçovas, que veio a suceder a seu sogro na alcaidaria de Évora, vendendo-a mais tarde ao rei D. Manuel. Deste casal provêm, entre outros, o ramo dos Lancastres, condes das Acáçovas e da Guarda. Do alcaide-mór de Casével foi filha D. Beatriz de Melo, casada com Pedro de Castro, 3º alcaide-mór de Melgaço. Destes vêm os Melo e Castro, que vieram depois a ser condes das Galveias.

D. Manuel José de Melo (Cartaxo) prosseguiu a obra de seu sogro, Alfredo da Silva, construíndo um dos maiores grupos empresariais portugueses.

De Martim de Melo, alcaide de Olivença e de Vasco Martins de Melo, alcaide-mór de Évora foi irmão mais novo, como já tínhamos dito, João de Melo. Depois de, por algum tempo, andar por essa Europa a pelejar, regressou a Portugal, esteve em Tânger com seu irmão, e finalmente foi alcaide-mór do Redondo e de Serpa, foi fronteiro-mór de D. Afonso V e seu copeiro-mór. Teve o senhorio de Pavia e deixou vários filhos de dois casamentos. Entre outros, Garcia de Melo, alcaide-mór de Serpa, Henrique de Melo, senhor da quinta de Ficalho, no termo de Serpa e D. Isabel de Melo, de quem descendem os Melo Manoel, o célebre D. Francisco Manuel de Melo e os condes da Silvã.
Na alcaidaria de Serpa, a Garcia de Melo sucedeu seu filho Henrique, mestre sala do rei D. Manuel e dele houve dois varões: Cristovão e Rui de Melo. Do primeiro vêm os Melos porteiros-móres, cuja descendência se extinguiu com D. Vitória de Melo, que em 1763 casou com João de Sampaio de Melo e Castro, sem sucessão. De Rui, provem uma outra linha de Melos de que se conhede mal a genealogia. Daquele mesmo Garcia de Melo foram também filhos Simão de Melo, que depois mudou o nome para D. Jorge de Melo, bispo da Guarda, e Jorge de Melo, monteiro-mór do reino, ofício que se manteve na sua descendência até ao 9º monteiro-mór, Francisco José Luis de Melo, que morreu sem deixar filhos em 1789. No cargo sucedeu seu primo Francisco de Melo da Cunha de Mendonça e Menezes, criado mais tarde 1º marquês de Olhão.
De Henrique de Melo, senhor da quinta de Ficalho, foi filho e herdeiro Duarte de Melo, na sua descendência se mantendo o vínculo até seu bisneto Pedro de Melo, a quem em 1678, o rei D. Pedro II concedeu, para seu filho Francisco, a mercê da vila de Ficalho. Deste último, que foi governador de armas do Alentejo e da Beira, ficou por herdeira uma filha, D. Teresa Josefa de Melo, casada com António Teles da Silva, filho dos 2ºs marqueses de Alegrete, que foi o 2º senhor de Ficalho. Sucedeu-lhes o filho Francisco de Melo, casado com D. Isabel Josefa Breyner de Menezes, camareira da rainha D. Maria Ana Vitória e condessa de Ficalho depois de viúva. Tiveram larga descendência, deles sendo filho, entre outros, Pedro de Melo Breyner, pai do 1º conde de Melo já atrás referido e António José de Melo, primogénito e sucessor, pai do 1º conde de Ficalho, Francisco de Melo. Casou este com D. Eugénia de Almeida (Lavradio) e foram pais, entre outros, de António, 2º conde e 1º marquês de Ficalho, de Luis de Melo Breyner, 2º conde de Sobral pelo casamento e de Francisco de Melo Breyner, 1º conde de Mafra, todos com descendência que chegou aos nossos dias. Falámos acima em Simão de Melo, que trocou o nome para Jorge, depois de se acolher sob a protecção de D. Jorge da Costa, o cardeal de Alpedrinha. Também dele ficou descendência, que o rei D. João III legitimou. Dos vários filhos que teve, com direito ao tratamento de “Dom”, descendem vários ramos de Melo e, nomeadamente, o dos condes de Murça. Em nenhum dos ramos da família que mais se distringuiram e deixámos aqui tratados se manteve, como ficou visto, a varonia de D. Mem Soares, o primeiro que usou o apelido de Melo.

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